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| WhatsApp começa a cobrar por mensagens no Brasil e coloca IA na mira | |  | Helton Simões Gomes |
| | A Meta vai cobrar no Brasil por mensagens no WhatsApp quando você conversar com chatbots de inteligência artificial, como ChatGPT (OpenAI), Copilot (Microsoft), Zapia e Luzia. A decisão foi tomada nesta semana e é um desdobramento de uma disputa entre a empresa de Mark Zuckerberg e desenvolvedores de IA que fizeram do WhatsApp uma avenida aberta para distribuírem seus serviços a mais gente. Ainda que fosse pedra cantada, a medida pegou de surpresa as empresas atingidas. Algumas só notaram a mudança ao serem acionadas pela coluna. Apesar de os valores não terem sido confirmados pela Meta, tabelas acessadas pela coluna mostram que o custo por mensagem é cobrado em dólar, mas, convertido, varia de R$ 0,02 a R$ 0,33. É algo irrisório no varejo, mas, no atacado, pode chegar a milhões de reais se os chatbots de IA forem muito acionados. Uma provedora de IA diz que os pagamentos contrariam a decisão do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que liberou os chatbots no Brasil. Outra empresa atingida afirma à coluna que, mesmo autorizada, pretende deixar o WhatsApp, já que operar no aplicativo de mensagem passa a ser inviável. |
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| | | O início da cobrança no WhatsApp é consequência direta de uma decisão do tribunal do Cade, tomada nesta quarta: - Os conselheiros rejeitaram por unanimidade o recurso de Facebook e WhatsApp, ambos controlados pela Meta, para derrubar a decisão de outro órgão do Cade, a Superintendência-Geral;
- Em janeiro, a área técnica suspendeu preventivamente o veto imposto pela Meta aos chatbots de IA no WhatsApp. Além disso, abriu investigação para averiguar se a conduta afeta a concorrência, já que, na ausência de ChatGPT, Copilot e companhia, o Meta AI seria a única opção de serviço de IA no WhatsApp;
- A Meta sofreu o mesmo revés em outros países, como a Itália. E, quando isso ocorreu em fevereiro, optou pela estratégia de cumprir a ordem regulatória com uma mão e cobrar das plataformas com a outra;
- Como obteve uma liminar na Justiça, a dona do WhatsApp manteve a emissão dos boletos em suspenso por aqui. Nesse meio-tempo, a Zapia deu um passo ousado e anunciou a chegada de agentes de IA à sua plataforma e já prepara a entrada deles no WhatsApp.
- Agora, no entanto, a cobrança chega ao Brasil. Tão logo o Cade divulgou sua decisão, a Meta reativou o plano:
Onde formos legalmente obrigados a disponibilizar chatbots de IA por meio da API do WhatsApp, estamos atualizando nossos termos e nosso modelo de preços para que possamos continuar a oferecer suporte a esses serviços. Porta-voz do WhatsApp - Não é trivial aferir o preço a ser pago por conversas no WhatsApp, mas, neste caso, a própria Meta indica como a fatura será calculada: "Por exemplo, se um usuário na Itália enviar um comando a um Provedor de IA e o Provedor enviar três respostas de mensagens que não são de modelo ao usuário em um período de cinco minutos, isso resultará em três cobranças".
- Nos bastidores do WhatsApp, as mensagens de provedores de IA serão rotuladas como "general_purpose_ai" e serão cobradas, enquanto as interações de marcas e empresas que usam IA em seus canais de atendimento serão enquadradas como "AI_BOT" e ficarão isentas;
- Mas de quanto será a cobrança? Eis um problema. A Meta não confirmou em qual categoria incluirá as mensagens de IA (são quatro: 1) "autenticação": para checar identidade, 2) "marketing": para envio de ofertas, 3) "utilidade": para acompanhar atividades e pedidos e 4) "serviço": para respostas sobre serviço).
- O enquadramento confunde provedores ao ponto de acharem que as mensagens de seus chatbots serão classificadas como "serviço", o que, no Brasil, não gera pagamento. "É complexo para nós entendermos também", diz um executivo.
- Conforme guias elaborados pela Meta, o mais provável é que ocorra uma combinação entre as modalidades. O WhatsApp cobra pelas mensagens de marketing R$ 0,33 (é o valor na moeda nacional da tarifa de US$ 0,0625 considerando a cotação do dólar de R$ 5,287). Esse, porém, não é o caso preponderante para os chatbots, pois as mensagens de marketing geralmente são enviadas diretamente pelas empresas para promover algum produto ou serviço.
- A categoria mais aplicável é a de "utilidade", cuja cobrança varia conforme o volume de mensagens. Quanto mais forem enviadas, mais barato fica.
- Para um pacote de 100 milhões, a conta seria a seguinte, considerando as faixas de preço aplicadas pela Meta:
- Até 250 mil enviadas: R$ 8987,9 (R$ 0,0359516 por envio);
- Mais 1.750.000 enviadas: R$ 60.139,625 (R$ 0,0343655 por envio);
- Mais 15 milhões: R$ 483.760,5 (R$ 0,0322507 por envio);
- Mais 18 milhões: R$ 551.962,8 (R$ 0,0306646 por envio);
- Mais 35 milhões: R$ 999.243 (R$ 0,0285498 por envio);
- Mais 30 milhões: R$ 808.911 (R$ 0,0269637 por envio).
- O total da fatura no fim do mês seria de R$ 2.913.004,82, com mensagens variando de R$ 0,035 a R$ 0,026.
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| | | A cobrança recairá sobre as plataformas, mas afeta diretamente o consumidor na medida em que as empresas perdem a capacidade de atuar no WhatsApp. A Microsoft, dona do Copilot, informou que não comentaria. Já a OpenAI não respondeu até o fechamento desta reportagem. Para a Zapia, a decisão da Meta contraria a decisão do Cade. Pelo nosso entendimento da decisão do Cade, esses preços não deveriam ser aplicados no Brasil. A decisão determina que a Meta retorne às regras que estavam em vigor antes da política anunciada em outubro do ano passado. Ainda assim, é preciso ver como a situação vai evoluir, já que não recebemos até agora um comunicado oficial da Meta Juan Pablo Pereira, CEO da Zapia A espanhola Luzia comemorou a decisão do Cade e, diante dos preços da Meta, entregou os pontos sobre atuar no WhatsApp. Segundo Pablo Delgado, head de comunicação, a startup ficou satisfeita por "saber das resoluções em diferentes jurisdições em relação à situação com a Meta AI e provedores de bots de IA". Infelizmente, os preços impostos em 16 de fevereiro, que permanecem inalterados desde então, tornam inviável oferecer um serviço na escala em que a Luzia vinha operando até o momento. Esta decisão da Meta complicará a expansão de novos serviços e sufoca o desenvolvimento da concorrência entre provedores de serviços de IA Pablo Delgado, head de comunicação da Luzia Com 80 milhões de usuários, a empresa pretende agora focar em outros canais de distribuição. |
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| | A proibição aos chatbots de IA veio após a Meta alterar as regras da versão corporativa do WhatsApp. Segundo a Meta, a ferramenta foi criada para empresas fazerem negócio, mas ChatGPT, Zapia e companhia estavam sobrecarregando os sistemas com trocas de mensagem que não tinham relação com a prestação ou oferta de serviços ou a compra e promoção de produtos. Para o tribunal do Cade, as novas diretrizes do WhatsApp podem impedir a soluções de IA generativa na plataforma e configurar dano concorrencial. Segundo o conselheiro Carlos Jacques, relator do caso, como Meta AI e WhatsApp fazem parte de uma mesma empresa, restringir a oferta de IA generativa num dos aplicativos aplicativos mais populares do Brasil tem um só objetivo final: "aumentar o valor do ecossistema". Como orquestradora de um ecossistema digital, a Meta possui a capacidade de decidir pela entrada ou pela exclusão de complementos oferecidos no seu ecossistema. E, nesse sentido, poderia identificar ameaças aos seus serviços e adotar estratégias para impedir que complementadores ameaçem seus próprios serviços Carlos Jacques, relator do caso no CADE Como a análise da suspensão corre em paralelo à investigação de conduta anticompetitiva, é provável que o conselho inclua em sua análise que a presença dos chatbots de IA foi liberada no WhatsApp, mas condicionada à cobrança por mensagens enviadas por eles. E o efeito da leitura desse novo movimento da Meta pode trazer novos desfechos para o caso. |
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