| O Banco Mundial calcula que a floresta amazônica em pé teria um valor de US$ 317 bilhões por ano. Mas, em 2024, o Pará, que exportou US$ 23 bilhões, eliminou 6,7 milhões de árvores da floresta e obteve um faturamento diminuto de apenas US$ 500 milhões com as madeiras da Amazônia. Cientistas brasileiros descreveram, para a Amazônia, plantas que produzem fibras, madeiras, celulose, corantes, óleos essenciais, óleos vegetais fixos, alimentos e substâncias medicinais, capazes de gerar alimentos, cosméticos e produtos farmacêuticos. O mercado farmacêutico brasileiro conta com 411 empresas, sendo 295 (72%) de capital nacional e 116 (28%) internacionais, movimentando cerca de US$ 36 bilhões por ano. As 10 maiores empresas, com base no faturamento, são de capital nacional e ocupam 48% do mercado: EMS, Eurofarma, Hypera Pharma, Aché, Cimed, Libbs, Prati-Donaduzzi, Cristália, Biolab e União Química. Apesar disso, com raras exceções, como o Acheflan, quase não há, em seus portfólios, fitomedicamentos de origem na biodiversidade brasileira. Isso não surpreende, já que são poucas as plantas medicinais brasileiras acreditadas pela Anvisa, e menos ainda as originárias da Amazônia, um evidente desperdício. O professor Walter B. Mors, cujo nome hoje batiza o Instituto de Química de Produtos Naturais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro, descreveu cerca de 1.450 plantas medicinais no Brasil. No entanto, apenas a unha-de-gato (Uncaria tomentosa), da Amazônia, integra a Farmacopeia Brasileira, e poucas espécies fazem parte da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus). Na Amazônia, a copaíba (Copaifera spp.) e a andiroba (Carapa guianensis e C. procera) são amplamente utilizadas por populações indígenas, comunidades quilombolas e diferentes segmentos da população amazônica. A oleorresina da copaíba, de uso medicinal — inclusive na medicina veterinária —, chegou a ter acreditação pela Anvisa, mas foi posteriormente retirada por falta de ensaios pré-clínicos e clínicos robustos, exigidos para o registro de fitomedicamentos. Estudo patentométrico recente mostra que a copaíba possui cerca de uma centena de pedidos de patentes, sendo 43 no Brasil e o restante no exterior, com usos cosméticos já superando os de medicamentos. Para a andiroba, nos últimos 20 anos, foram registrados 173 depósitos de patentes nos Estados Unidos, Europa e Brasil referentes às suas atividades anti-inflamatória, antialérgica e inseticida. Pesquisas de cientistas brasileiros também deram origem a medicamentos desenvolvidos fora do país. Um exemplo clássico é o trabalho de Sérgio Henrique Ferreira, farmacólogo da USP de Ribeirão Preto, que estudou a bradicinina, associada ao veneno da Bothrops jararaca. A descoberta possibilitou o desenvolvimento de medicamentos usados no tratamento da hipertensão arterial, um mercado global de US$ 27 bilhões em 2025. Para que uma planta medicinal, reconhecida popularmente por seus efeitos curativos, se transforme em medicamento, o caminho é longo e custoso. Ensaios de segurança e eficácia têm alto custo e provavelmente estão na raiz do problema. O mercado farmacêutico, por sua vez, não parece ser o obstáculo. Produtos naturais estão em alta demanda, e, havendo comprovação científica de segurança e eficácia, o setor certamente incorporaria essas plantas ao consumo. Há um volume expressivo de estudos acadêmicos nas universidades brasileiras com plantas medicinais, mas raramente seus extratos chegam sequer aos testes de segurança, que demonstram que o produto não causa danos ao paciente. Os ensaios de eficácia, necessários para comprovar propriedades farmacológicas, são ainda mais dispendiosos, podendo alcançar milhões de reais. Essa dificuldade ajuda a explicar por que empresas farmacêuticas frequentemente optam por adquirir direitos de formulação de medicamentos estrangeiros, como o Ginkgo biloba, originário da Alemanha, utilizado para melhora da memória e tratamento de enxaquecas. Plantas brasileiras com propriedades semelhantes existem, mas, sem comprovação de segurança e eficácia, acabam permanecendo nas prateleiras das universidades. Há, no entanto, uma boa notícia no setor de medicamentos de origem natural. Pesquisa do Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz (RJ) deverá resultar no primeiro fitoterápico industrializado desenvolvido a partir do quebra-pedra (Phyllanthus niruri), planta da biodiversidade brasileira tradicionalmente usada no tratamento de distúrbios urinários. Também há sinais positivos para o desenvolvimento de produtos de base florestal na Amazônia. Durante a COP30, foi inaugurado um novo conjunto de laboratórios de produção no antigo Armazém das Docas do Pará, em Belém. As instalações piloto-industriais são voltadas aos setores de alimentos e bebidas, química de produtos naturais e cosméticos, estes dois últimos ainda em fase de implantação. A Fundação Certi faz a gestão do Parque de Bioeconomia do Pará, que já registrou cerca de 1.000 startups em toda a Amazônia brasileira. Essas empresas somam-se às 187 companhias da região que produzem insumos para alimentos (74%), cosméticos (14%) e química (9%) a partir de matérias-primas da floresta (Oliveira Brandão et al., 2025). Muitas dessas microempresas e pequenas indústrias, entretanto, possuem pouco capital humano, financeiro e tecnológico. Empresas de inovação dependem de laboratórios de pesquisa e ambientes piloto-industriais para gerar protótipos — infraestrutura ainda rara na Amazônia. Fortalecer empresas de inovação na região deveria ser objetivo central dos ministérios em Brasília e das secretarias estaduais. Segundo o Sebrae, cerca de 25% das startups encerram atividades antes de completar um ano, e metade não chega a gerar resultados. Empresas na Amazônia precisam de apoio financeiro, mas também de capital humano qualificado. Inovar com produtos da floresta exige profissionais com formação universitária, mestres e doutores. O recente Parque de Bioeconomia das Docas, inaugurado durante a COP30, tem potencial para ajudar a mudar o paradigma amazônico. Atenção especial deveria ser dada às empresas sediadas na região, que operam em um ambiente econômico particularmente sensível a turbulências. Recomendações para o desenvolvimento de fitomedicamentos da biodiversidade amazônica1. Os numerosos estudos científicos sobre plantas medicinais amazônicas raramente se transformam em tecnologia e inovação. Muitos cientistas evitam registrar patentes, e parte dessas inovações acaba sendo apropriada por instituições estrangeiras. 2. Para que extratos vegetais se tornem fitomedicamentos, são necessários testes de segurança e eficácia, estudos complexos, longos e de alto custo, raramente realizados nas universidades. 3. Embora a maioria das empresas farmacêuticas no Brasil seja nacional, muitas não desenvolvem tecnologia no país, limitando-se à aquisição de registros de medicamentos estrangeiros. 4. A Amazônia ainda carece de instituições dedicadas plenamente à ciência, tecnologia e inovação, comparáveis ao MIT, nos Estados Unidos, ou ao CNRS, na França. O novo Parque de Bioeconomia do Pará pode tornar-se um embrião para pesquisa e desenvolvimento de extratos medicinais. 5. Apenas grandes empresas possuem recursos para realizar os ensaios de segurança e eficácia. Uma alternativa seria ampliar a cooperação com farmacêuticas de maior porte, superando o ainda evidente distanciamento entre universidades e empresas. *Lauro E. S. Barata é doutor em Química pela Universidade Estadual de Campinas e pós-doutor pelo CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), Institut de Chimie des Substances Naturelles. É professor visitante da University of London, School of Pharmacy. |
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