A falta de integração regional, o subfinanciamento crônico e o apagamento das ciências indígenas e locais continuam a limitar o pleno potencial do conhecimento produzido na Amazônia. O resultado é a fragmentação dos esforços científicos e a dependência de instituições e recursos de países desenvolvidos para formular soluções sustentáveis para a maior floresta tropical do planeta. Este, no entanto, é um momento decisivo para mudar de rumo. Elaborado pelo Painel Científico para a Amazônia, o Relatório de Avaliação da Amazônia 2025 dedica um capítulo inteiro aos desafios e caminhos para fortalecer a ciência amazônica. Uma palavra resume suas conclusões: protagonismo. Um bioma continental, com dinâmicas sociais, ambientais e econômicas singulares, exige políticas científicas à altura de sua complexidade. E isso só é possível com cientistas amazônidas, das universidades às comunidades locais, liderando a formulação de soluções próprias. O primeiro e mais persistente desafio é o do financiamento. No Brasil, a desigualdade na distribuição dos recursos destinados à ciência se impõe como uma barreira estrutural ao desenvolvimento de soluções, à formação de pessoal e à aproximação entre ciência e sociedade. Apenas cerca de 4% do investimento nacional em ciência é direcionado à região Norte, onde se concentra a maior parte do bioma amazônico. O desequilíbrio também se reflete no número de pesquisadores: são aproximadamente 6.600 doutores na região, contra mais de 60 mil no Sudeste, segundo dados do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Essa assimetria molda a própria produção científica sobre a Amazônia. Entre 953 artigos altamente citados sobre o tema, observa-se forte dependência de colaborações com instituições de países desenvolvidos. A cooperação entre países amazônicos, por sua vez, é limitada. Instituições brasileiras tendem a priorizar parcerias com os Estados Unidos, em detrimento de outros países da região. Equador, Colômbia e Peru colaboram mais com Inglaterra, França, Canadá e Espanha do que entre si. Mesmo no Brasil, universidades fora da Amazônia, como a USP (Universidade de São Paulo), aparecem com maior frequência nas autorias de publicações sobre o bioma, resultado de coautorias com instituições amazônicas e estrangeiras. Diante desse cenário, linhas nacionais e internacionais de financiamento voltadas especificamente à Amazônia, baseadas na cooperação entre países da região, tornam-se essenciais para consolidar programas de longo prazo, fortalecer infraestruturas locais e fixar pesquisadores no território. Mas financiamento, por si só, não basta. Sem protagonismo local, ele não responde plenamente aos desafios. Em escala global, a ciência enfrenta uma crise de legitimidade, associada a métricas que premiam exclusivamente a produtividade acadêmica e ao distanciamento das realidades territoriais. A resposta passa pela construção de uma ciência transformadora, feita em diálogo com atores locais, na qual o cientista atua como facilitador de processos, e não apenas como observador permanente da realidade. Na Amazônia, essa prática já existe e precisa ganhar escala. Experiências em áreas como saúde, saneamento, pesca, conservação, sociobioeconomia e arqueologia demonstram como o protagonismo comunitário fortalece resultados científicos e gera soluções inovadoras. As ciências indígenas, afrodescendentes e ribeirinhas ampliam abordagens convencionais, produzem diagnósticos mais precisos e geram respostas mais adequadas aos territórios. Financiamento e protagonismo caminham juntos. Avaliar a qualidade da pesquisa amazônica e ampliar os investimentos exige considerar suas contribuições concretas para os territórios, do fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis à valorização cultural, da governança local ao enfrentamento de doenças tropicais. Isso implica apoiar pesquisas lideradas por amazônidas, estimular redes interculturais de colaboração, proteger dados produzidos em parceria com povos tradicionais e garantir a repartição justa dos benefícios e da renda gerados. Para países historicamente marcados pelo colonialismo e pela exploração extrativista, fortalecer a ciência amazônica é mais do que um desafio orçamentário: trata-se de um projeto de soberania e de futuro. Os caminhos já estão delineados. O que falta é coragem política para percorrê-los — e acelerar sua escala para toda a Amazônia. Colaborou Tiago Mota e Silva, jornalista e doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Atua na interseção entre jornalismo, ciência e políticas públicas, com foco na Amazônia. Desde 2023, trabalha a partir de Manaus, colaborando com veículos como Mongabay Brasil, UOL, The Conversation e Nexo Políticas Públicas, além de produzir policy briefs para a Academia Brasileira de Ciências e o Painel Científico para a Amazônia - SPA. Atualmente, é bolsista de Apoio à Difusão do Conhecimento no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Adapta, com sede em Manaus. |
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