A COP30 deixou evidente que o mundo ainda está longe de um consenso sobre como enfrentar a crise climática global, especialmente no que diz respeito à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e ao combate efetivo ao desmatamento e degradação dos biomas. Ao longo dos dias, ficou claro que há avanços importantes em termos de discurso, articulação e reconhecimento da gravidade do problema, mas também persistem divergências profundas sobre o ritmo, a escala e a urgência das ações necessárias. Ao término da conferência, a sensação geral era ambígua. De um lado, houve um esforço coletivo para sustentar o otimismo, nutrido por diálogos ricos e diversos que reforçaram a magnitude das ameaças, mas também trouxeram evidências concretas de caminhos viáveis de solução. De outro, o "elefante no meio da sala" permaneceu inabalável: a consciência de que, mesmo com tantos esforços diplomáticos, técnicos e políticos, ainda estamos muito aquém do que seria necessário para conter a velocidade da emergência climática. Esse desconforto se impõe e revela os limites de um sistema internacional que avança, mas não na cadência exigida pela ciência. Ainda assim, não saímos de mãos vazias. Há sinais de esperança — discursos que prometem acelerar a ação climática no próximo ano, compromissos de ampliar o debate sobre combustíveis fósseis, e iniciativas voltadas a construir um entendimento mais integrado sobre a dinâmica do desmatamento e da degradação e seus impactos. Esses movimentos apontam que existe, ao menos em parte, a disposição global de enfrentar os nós estruturais que sustentam a crise. Mas, ao mesmo tempo em que vivenciamos esses avanços, também somos lembrados da força das resistências internas. Testemunhamos no Brasil mais uma derrota no âmbito do Executivo, diante da decisão do Congresso Nacional sobre o PL2159 de derrubar vetos essenciais e preservar uma legislação que, na prática, flexibiliza a devastação ambiental. Esse episódio expõe, mais uma vez, a fragilidade dos mecanismos de proteção ambiental no país e revela como decisões políticas continuam a prevalecer sobre evidências científicas e sobre a urgência climática. As interações sinérgicas entre mudanças climáticas e dos usos da terra com aceleradas taxas de desmatamento e degradação dos biomas brasileiros estão colocando a floresta amazônica, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga muito próximos dos pontos de não retorno, degradando enormemente estes ecossistemas do país com a maior biodiversidade do planeta. No sul da Amazônia, uma área superior a 2 milhões de km², a estação seca já se alongou de 4 a 5 semanas nos últimos 40 a 45 anos, um acréscimo médio de uma semana por década. Antes, o período sem chuvas durava de três a quatro meses e ainda registrava cerca de 50 milímetros de precipitação no mês mais seco. Hoje, essa chuva caiu entre 20% e 30%, enquanto as temperaturas na estação seca subiram de 2°C a 3°C. No sudeste da Amazônia, a situação é ainda mais crítica: desde 2010, essa parte da floresta deixou de atuar como sumidouro e passou a ser uma fonte de carbono, sinalizando que a região se aproxima rapidamente do ponto de não retorno. Mantidos o desmatamento e o aquecimento global atuais, esse limite pode ser atingido antes de 2050, com risco de savanização de até 70% da floresta, liberação de mais de 250 bilhões de toneladas de CO2 e perda irreversível de biodiversidade. O Cerrado também enfrenta uma situação crítica. Em sua porção oeste, a Caatinga já avançou sobre 230 mil km² nos últimos 30 anos. O Pantanal segue o mesmo caminho de risco. O desmatamento e a degradação de grandes áreas da Amazônia e do Cerrado estão reduzindo o transporte de vapor d'água pelos rios voadores — um processo que afeta diretamente os sistemas hídricos que alimentam o Pantanal. Como consequência, o bioma já perdeu mais de 40% de sua área alagada. A Caatinga, por sua vez, mostra sinais alarmantes de transformação em um semideserto. Regiões do norte da Bahia e do sudoeste de Pernambuco já registram cerca de 400 milímetros de chuva por ano, índices compatíveis com um clima semidesértico. Se o desmatamento continuar avançando nesses três biomas e o aquecimento global chegar a 2ºC, eles também cruzarão o ponto de não retorno antes de 2050 — e o Brasil perderá a maior biodiversidade do planeta. A produção de alimentos, hoje um dos pilares econômicos do país, também será gravemente comprometida. Para evitar esse cenário, um Projeto de Lei realmente sustentável deveria proibir novos desmatamentos e qualquer forma de degradação em todos os biomas, além de promover, em larga escala, a restauração ecológica — incluindo a Mata Atlântica. Essa combinação não só reduziria de forma significativa o risco de ultrapassarmos pontos de não retorno, como também removeria grandes volumes de CO2 da atmosfera, contribuindo para que o Brasil alcance emissões líquidas zero até 2040. Esse cenário acende um alerta importante: há limites estreitos para qualquer avanço enquanto persistir uma arquitetura de governança que, historicamente, mantém privilégios, desconsidera fatos e reproduz desigualdades estruturais. Ainda que existam esforços legítimos e compromissos reais, eles colidem com uma estrutura de poder que opera, muitas vezes, em direção contrária às necessidades do planeta e da sociedade. Reconhecer essa tensão não significa ceder ao pessimismo, mas sim compreender com clareza o terreno sobre o qual estamos tentando construir soluções. Se a COP30 reforçou as contradições do momento climático global, ela também indicou que há trilhas possíveis — desde que haja coragem política, força institucional e mobilização social suficientes para enfrentar, de fato, os interesses que sustentam a crise. É nesse entrelaçamento entre esperança e frustração que se moldam os próximos passos. |
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