| Estamos todos respirando aliviados com as notícias sobre a queda de 11% desmatamento da Amazônia brasileira de agosto de 2024 até julho de 2025 comparado com o ano anterior e de 77% nos incêndios florestais nos últimos 4 meses (julho a outubro de 2025 comparado com os mesmos meses de 2024). São notícias muito boas e meritórias ao Brasil, que sedia a COP30, pela primeira vez na Amazônia. Mas, as quedas maiores serão cada vez mais difíceis de serem alcançadas e com certeza isso preocupa os tomadores de decisão, sobretudo no próximo ano, que é um ano eleitoral. Falar em desmatamento no Brasil em muitas rodas virou assunto incômodo que preferiríamos já ter superado, mas que continua ali, enorme, como um elefante no meio da sala do Brasil. Enquanto celebramos nossa matriz elétrica limpa, o avanço das energias renováveis, o bioetanol, o hidrogênio verde e outras inovações, ignoramos o fato mais simples e urgente: por várias décadas somos o país que mais desmata no mundo, mesmo tendo conseguido o feito histórico de reduzir 50% nos últimos anos. E o mais paradoxal é que, diferentemente das tecnologias complexas de transição energética, conter o desmatamento não exige descobertas científicas revolucionárias. Mas, o desmatamento continua no canto da sala, sempre ameaçando e nos colocando em saias justas na geopolítica global. Sabemos que as causas do desmatamento não são simples nem triviais. E embora não dependam de tecnologia, dependem, sim, de uma mudança drástica na economia — principalmente na forma como ela se desenvolve nas regiões de fronteira da Amazônia. Uma coisa é certa: reflorestar sem conter o desmatamento não melhora o balanço de carbono. O desmatamento também tem uma face política muito forte. A depender do governo, não sabemos o que pode acontecer. Indendentemente da COP30, é importante olharmos para as ações necessárias para, pelo menos, cumprir o que já foi prometido nas NDCs. O Brasil tem duas metas importantes e alguns caminhos traçados: desmatamento zero líquido até 2030 e uma NDC que prevê a redução de até 50% das emissões até 2035 em comparação às emissões de 2019. A maior parte dessas emissões está ligada ao desmatamento. Ou seja, se cumprirmos a meta de zerar ou reduzirmos drasticamente o desmatamento de todos os biomas, já estaremos a mais de meio caminho para alcançar nossa NDC, como acabamos de ver acontecer. Mas quais são hoje os principais estímulos -- e recursos -- para reduzir os desmatamentos? E como empresas brasileiras poderiam apoiar alguns desses mecanismos? Ainda existem poucos estímulos reais. O que há, em geral, são desestímulos pelos quais se provoca uma redução ao desmatamento: nosso velho e bom comando e controle, super importante nesse processo no Brasil, mas com seus claros limites. Já os desestímulos econômicos ainda são tímidos — e não custam o suficiente para tornar o desmatamento inviável economicamente. Mas, com certeza, é um caminho que vem sendo cada vez mais reforçado pelas políticas públicas e pelo mercado. Os novos mercados de serviços ecossistêmicos, como o de carbono, poderiam ser uma dessas respostas? Depende. Se operarem em escala, como nos programas jurisdicionais, podem, sim, ser uma solução — talvez a única forma, dentro do mercado de carbono, que seja efetiva e equitativa. Os programas jurisdicionais de REDD+ são um dos poucos mecanismos que permitem que um estado subnacional — ou o próprio país — receba um estímulo econômico pela redução do desmatamento e da degradação. Sabemos que hoje a Amazônia brasileira tem cerca de 22% já desmatada e mais 30% em estado de degradação. Ao contrário dos projetos isolados (que também possuem seu valor em outra dinâmica), esses programas olham para o território como um todo: combinam planejamento, políticas públicas e incentivos econômicos para premiar a redução comprovada do desmatamento em larga escala. Por meio desse tipo de programas, podemos endereçar nos estados questões estruturantes ou habilitantes que dificultam o desmatamento e facilitam a responsabilização, como a destinação de áreas públicas e regularização fundiária, por exemplo. Funciona assim: quando um estado reduz emissões de desmatamento em relação à sua linha de base, ele pode emitir créditos de carbono verificados internacionalmente e vendê-los a empresas ou governos que queiram contribuir para metas climáticas globais. Esses recursos retornam ao território e podem financiar atividades produtivas de baixo carbono, fortalecer comunidades Indígenas tradicionais locais e estimular cadeias sustentáveis — como a da castanha, do cacau e de outras sociobioeconomias amazônicas. Também é possível usar esses recursos para alavancar outros investimentos. Aqui a criatividade nas novas políticas públicas não precisa de limites. Esse modelo tem uma vantagem crucial: reconhece o esforço coletivo de estados, municípios, comunidades e produtores rurais — e não apenas o sucesso pontual de um projeto. É um sistema de recompensa por resultados, transparente, mensurável e verificável, que pode gerar bilhões de dólares para o Brasil caso avance com seriedade e governança. Há uma indicação de que poderia gerar mais de 10 bilhões de dólares para todos os estados da Amazonia Legal até 2030 (Nepstad, 2025) E onde entram as empresas brasileiras nessa história? Elas têm um papel central — não apenas como compradoras de créditos de carbono, mas como parceiras estratégicas desse novo pacto entre economia e floresta. Ao apoiar programas jurisdicionais, empresas dos setores de agronegócio, energia, mineração, finanças e tecnologia podem compensar parte de suas emissões de forma legítima, fortalecer suas cadeias produtivas na Amazônia e, o mais importante, ajudar o Brasil a cumprir sua NDC, pois, na outra ponta, contribuem diretamente para reduzir o desmatamento. O impacto de um setor privado brasileiro comprometido com as metas de desmatamento zero — investindo não por imposição, mas por uma convergência de valores e interesses — seria, sem dúvida, um gesto de liderança global e, ao mesmo tempo, de coerência nacional: transformar o maior passivo ambiental do país — o desmatamento — em um grande ativo para gerar um novo desenvolvimento. Não se trata de uma aliança Norte-Sul, nem Sul-Sul, mas Brasil-Brasil. Sem demérito de nenhuma delas — todas são fundamentais no financiamento climático e na luta contra o desmatamento —, mas também é aqui, entre nós, que a virada precisa começar imediatamente. A COP30, em Belém, é o palco perfeito para mostrar que o Brasil pode liderar não apenas no discurso, mas na prática de zerar as emissões líquidas até 2040 e o desmatamento até 2030. O mundo espera um sinal claro de que estamos prontos para aproximar floresta, economia, clima e sobretudo os povos que vivem e cuidam da floresta. E talvez o caminho mais inteligente para isso seja justamente aquele que estava ali, no canto da sala o tempo todo: enfrentar o desmatamento de frente — com os incentivos certos, na escala certa e com o compromisso de todos. |
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