O Chile confirmou que se dirige a um segundo turno presidencial tenso, marcado para 14 de dezembro. O país está dividido entre Jeannette Jara, candidata do governo de centro-esquerda e membro do Partido Comunista, e o ultraconservador José Antonio Kast, do Partido Republicano. Insegurança, voto obrigatório e avanço da direita Jara saiu à frente no primeiro turno, com cerca de 27% dos votos válidos, contra 24% de Kast. A leitura dos resultados, porém, indica que Kast chega ao segundo turno em posição mais favorável. A polarização e o avanço da direita foram alimentados por três eixos centrais: insegurança, crime organizado e imigração irregular. Violência em alta: O Chile enfrenta um salto na criminalidade sem precedentes em sua história recente. Os homicídios cresceram 140% na última década, alcançando 6 por 100 mil habitantes, enquanto os sequestros aumentaram 76% desde 2021. Especialistas apontam a "chegada do crime organizado e de delitos inéditos no país, como o sicariato (assassinato por encomenda executado por pistoleiros profissionais)". Pressão migratória: Parte significativa do eleitorado responsabiliza o fluxo recente de imigrantes — especialmente venezuelanos — pelo aumento da violência. Kast, admirador confesso de Donald Trump e Jair Bolsonaro, promete deportações em massa e a construção de muros, barreiras e valas na fronteira norte. A matemática da direita unida: Kast recebeu apoio imediato de outros candidatos derrotados no campo conservador, como Evelyn Matthei (que ficou em quinto) e o ultraliberal Johannes Kaiser. A soma dos votos de Kast, Matthei e Kaiser chega a cerca de 51%, consolidando as chances da direita no segundo turno. Este foi também o primeiro pleito presidencial chileno com voto obrigatório e registro automático, o que dobrou a participação e introduziu uma variável nova e imprevisível no cenário eleitoral. Análise: A guinada chilena em direção à direita ecoa movimentos recentes na região, como a ascensão de Javier Milei na Argentina, e pode produzir um novo aliado estratégico para o presidente Trump em temas sensíveis como mineração de cobre e lítio. EUA: A 'guerra civil' Republicana em torno dos arquivos EpsteinO Congresso dos EUA se prepara para uma votação decisiva que pode obrigar o Departamento de Justiça a divulgar todos os arquivos relacionados ao agressor sexual condenado Jeffrey Epstein. A medida bipartidária abriu uma fenda visível no Partido Republicano, enquanto o presidente Donald Trump tenta frear a iniciativa com uma ofensiva de última hora. A acusação de "cortina de fumaça": O congressista republicano Thomas Massie, coautor da proposta ao lado do democrata Ro Khanna, criticou Trump por ordenar à procuradora-geral Pam Bondi que investigasse democratas ligados a Epstein. Para Massie, a ordem pode funcionar como uma "grande cortina de fumaça", criando investigações em "certas áreas" justamente para bloquear a publicação dos documentos sob o argumento de "processos em curso". A motivação presidencial: Massie sustenta que Trump tenta proteger "um bando de amigos ricos e poderosos — bilionários, doadores de campanha, gente dos seus círculos sociais". A deserção republicana: Apesar da pressão, Massie calcula que "100 ou mais" republicanos podem votar pela divulgação integral dos arquivos. Ele alerta seus colegas de que o registro desse voto "durará mais do que a presidência de Donald Trump". O presidente da Câmara, Mike Johnson, tenta desinflar a crise, afirmando que a Casa "não tem nada a esconder". Ruptura: A disputa provocou um rompimento público com a deputada Marjorie Taylor Greene, até então aliada fiel de Trump. Ela defende transparência total e afirma que o conflito "se resume aos arquivos Epstein". Depois de ser chamada por Trump de "traidora" e "lunática tagarela", Greene fez um apelo por menos toxicidade na política e disse "humildemente" se arrepender de ter alimentado a retórica mais inflamada. A natureza do poder expostaOs emails de Epstein divulgados na semana passada pela comissão de supervisão da Câmara mostram que ele manteve contato com uma ampla rede de figuras influentes — da realeza britânica à academia, passando por negócios, jornalismo e política — mesmo após sua condenação em 2008. Em análise publicada pelo The Guardian, os documentos revelam menos uma "trama secreta" e mais um "sistema de poder que opera à vista de todos, indiferente à condenação ou consequência". EUA elevam pressão sobre a Venezuela A escalada militar dos EUA no Caribe atingiu um ponto crítico com a chegada do grupo de ataque do porta-aviões USS Gerald R. Ford ao Mar do Caribe, no contexto da operação "Southern Spear" (Lança do Sul), o maior reforço militar americano na região em gerações. Designação de organização terrorista: O secretário de Estado Marco Rubio anunciou que o Departamento de Estado pretende classificar o Cartel de los Soles — supostamente liderado por Nicolás Maduro e outras autoridades venezuelanas, segundo alegam os EUA — como Organização Terrorista Estrangeira a partir de 24 de novembro. Essa designação fornece base legal para que os EUA ataquem ativos e infraestrutura de Maduro dentro da Venezuela. Ataques letais no mar: O Comando Sul relatou o 21º ataque letal desde setembro contra embarcações suspeitas de narcotráfico no Pacífico Oriental, com a morte de três homens descritos como "narcoterroristas". O total de mortos já chega a pelo menos 83. Reações e riscos: Enquanto o senador republicano Rick Scott apoia as ações de Trump, a democrata Jeanne Shaheen questiona os objetivos da operação e argumenta que Maduro não representa uma ameaça direta aos EUA. Na região, a reação mais dura veio da Colômbia, cujo presidente mandou suspender o compartilhamento de inteligência com Washington e classificou os ataques como "execuções extrajudiciais" e "crime contra a humanidade". Irã: o programa nuclear após os bombardeios Paralelamente, o Irã indicou disposição para retomar as negociações nucleares com Washington, desde que seja tratado com "dignidade e respeito". O chanceler Abbas Araghchi afirmou que o país não está mais enriquecendo urânio em nenhuma instalação. O motivo, segundo ele, é que as usinas de enriquecimento foram "atacadas" em junho, durante uma guerra de 12 dias com Israel, apoiado pelos EUA. Teerã, no entanto, ainda não permite que a agência nuclear da ONU inspecione os locais bombardeados, alegando riscos de novos ataques. EUA: menos proteção a crianças, mais foco em deportaçõesUma investigação do The New York Times, baseada em documentos internos obtidos via Freedom of Information Act, mostra que a agenda de repressão migratória do governo Trump vem minando as funções centrais do Departamento de Segurança Interna (DHS). Desvio de foco: A agência HSI, braço investigativo do DHS, deslocou agentes de áreas como exploração sexual infantil, tráfico humano e terrorismo para priorizar ações de deportação. Crianças em risco: Entre fevereiro e abril, os investigadores da HSI trabalharam cerca de 33% menos horas em casos de exploração infantil do que a média de anos anteriores. Em um dos casos mais sensíveis, a retirada de agentes para tarefas migratórias travou a identificação e o resgate de uma criança vítima de abuso sexual. A engrenagem orçamentária: O orçamento do ICE, agência responsável por imigração e alfândega, deve quase triplicar, com aumento de 66% no número de agentes, a caminho de se tornar a organização policial mais financiada dos EUA. Charlotte, novo alvo das deportações, e os apitos de alertaO DHS ampliou a ofensiva para Charlotte, na Carolina do Norte, com uma operação batizada de "Charlotte's Web". No primeiro dia, agentes da Patrulha de Fronteira prenderam 81 pessoas. Táticas de intimidação: Igrejas e comércios, como padarias, fecharam portas para proteger imigrantes. O comandante da operação, Gregory Bovino, que já liderara ações em Chicago e Los Angeles, celebrou o saldo como "um sucesso". Chicago, laboratório da resistência: Em Chicago, epicentro da repressão migratória, nasceu a tática da "Whistlemania". Moradores carregam apitos laranjas para soar o alerta quando ICE ou CBP aparecem, mostra reportagem da agência Associated Press. O ativista Baltazar Enriquez afirma que os apitos "salvaram pessoas de serem sequestradas e presas ilegalmente". Reforma migratória radical no Reino Unido A secretária do Interior britânica, Shabana Mahmood, apresentou uma reforma ampla do sistema de asilo, inspirada no modelo dinamarquês. Status provisório: O status de refugiado passará a ser revisto a cada 30 meses, com possibilidade de deportação caso o país de origem deixe de ser classificado como perigoso — mesmo para famílias com crianças em idade escolar. Direito à vida familiar em xeque: O governo pretende restringir o uso do Artigo 8 da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (direito à vida familiar), dando peso maior à "segurança pública" para facilitar deportações. Alerta de novo escândalo Windrush: Organizações de caridade denunciam o risco de criar um "novo escândalo Windrush" (alusão ao escândalo em que o Reino Unido negou direitos e tentou deportar cidadãos caribenhos que viviam no país havia décadas), empurrando refugiados para um limbo quase permanente. Em artigo no Guardian, Mahmood defendeu a reforma como necessária para "restaurar a ordem e o controle" do sistema. Israel, Líbano e a tragédia prolongada em GazaA Força Interina da ONU no Líbano relatou que soldados israelenses atiraram contra seus pacificadores a partir de um tanque Merkava no sul do país, violando o cessar-fogo de um ano com o Hezbollah. Em Gaza, três palestinos morreram em bombardeios a leste de Khan Younis, apesar do acordo de cessar-fogo. Milhares de famílias deslocadas enfrentam inundações severas em abrigos improvisados após fortes chuvas, enquanto Israel mantém restrições à entrada de tendas e casas móveis. O enigma da água no IrãO Irã vive uma crise hídrica descrita como evento de "uma vez por século". Teerã registrou apenas 1 mm de chuva neste ano, e 32 barragens operam com menos de 5% da capacidade. Tecnologia e teologia: As autoridades tentaram a semeadura de nuvens, lançando partículas na atmosfera para estimular chuva. Paralelamente, líderes conservadores interpretam a seca como sinal de desaprovação divina, associando-a à "libertinagem nas ruas" e ao descumprimento das leis de hijab. Cenário extremo: O presidente Masoud Pezeshkian chegou a admitir que pode ser necessário evacuar e realocar a população de Teerã para o sul até meados de dezembro. Pelo mundo Protestos Gen Z no México — Na Cidade do México, pelo menos 120 pessoas ficaram feridas, entre elas 100 policiais, em protestos liderados por jovens da Geração Z contra a corrupção e a violência do narcotráfico. Manifestantes usavam o símbolo pirata de One Piece e prestaram homenagem ao prefeito Carlos Alberto Manzo Rodríguez, assassinado por enfrentar os cartéis. Vaticano e mulheres trans — No Vaticano, 48 mulheres transgênero participaram do almoço anual do papa Leão 14 para pessoas em situação de pobreza, mantendo uma tradição iniciada sob o papa Francisco. Diferentemente dos anos anteriores, porém, nenhuma delas sentou à mesa principal com o pontífice. O cardeal Konrad Krajewski afirmou que o papa as acolhe, mas Leão 14 é visto como bem mais reservado em temas LGBTQ+ do que seu antecessor. |
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