Os eleitores de diversos estados americanos vão às urnas hoje nas primeiras eleições de costa a costa desde o início do conturbado segundo mandato de Donald Trump. Os pleitos estaduais e municipais servem como um "julgamento antecipado" da administração republicana e um teste de sobrevivência para o Partido Democrata. Eleições locais como referendo sobre Trump Os partidos encaram as eleições desta terça-feira como um ensaio geral para as disputas de meio de mandato de 2026, quando estará em jogo o controle do Congresso. Nova York: o socialismo à prova das urnas A corrida mais observada é a da Prefeitura de Nova York, onde o deputado estadual Zohran Mamdani, 34, tenta tornar-se o primeiro prefeito muçulmano e o segundo socialista da história da cidade. Apostando em uma plataforma progressista voltada à acessibilidade ("affordability") --aumento de impostos sobre os mais ricos para financiar transporte e programas sociais--, Mamdani transformou-se em poucos meses de desconhecido em símbolo de uma nova esquerda americana. A disputa, porém, é marcada por polarização: O fator Cuomo: o ex-governador Andrew M. Cuomo, concorrendo como independente após perder a primária democrata, busca ressurgir com o peso de sua experiência executiva, um drama político que remete à campanha de seu pai, Mario Cuomo, em 1977. O endosso presidencial: na véspera da votação, Trump declarou apoio a Cuomo, chamou Mamdani de "comunista" e ameaçou cortar verbas federais da cidade caso o socialista vença. Mamdani reagiu com ironia: disse que o gesto de Trump é o "prego no caixão" da campanha de Cuomo e lembrou que "a ameaça não é lei". Uma vitória ampla de Mamdani seria interpretada como um mandato popular para a agenda progressista, e um sinal de que a esquerda democrata não é tão "tóxica" quanto parte do partido teme. Governadores em disputa: Virgínia e Nova Jersey Um ano após a eleição presidencial, Virgínia e Nova Jersey costumam servir de termômetro do humor político nacional: Virgínia: a democrata Abigail Spanberger, ex-agente da CIA, lidera sobre a republicana Winsome Earle-Sears. A vencedora será a primeira mulher a governar o estado. Nova Jersey: a democrata Mikie Sherrill tenta ampliar vantagem mínima sobre o republicano Jack Ciattarelli, numa disputa dominada pela insatisfação com o custo de vida. A batalha do mapa na Califórnia A Proposição 50, patrocinada por Gavin Newsom, tenta redesenhar distritos eleitorais para reverter ganhos republicanos. Se aprovada, pode transferir até cinco cadeiras na Câmara aos democratas, e servirá de medidor do engajamento anti-Trump na Costa Oeste. Dick Cheney: o falcão que virou dissidenteO ex-vice-presidente Dick Cheney morreu aos 84 anos, em decorrência de complicações cardíacas e pulmonares. Figura central em quatro administrações republicanas, Cheney foi considerado o vice mais poderoso da história moderna dos EUA. Arquiteto da invasão do Iraque em 2003, defendeu o uso de "técnicas de interrogatório aprimoradas" --um eufemismo para tortura-- e nunca recuou de sua visão de que os EUA deviam agir preventivamente para preservar sua segurança. Nos últimos anos, rompeu com o trumpismo: em 2024, declarou voto em Kamala Harris, chamando Trump de "a maior ameaça à república americana em 248 anos". Crises e tensões globaisIsrael: escândalo militar e polarização A renúncia e prisão da ex-chefe jurídica das Forças Armadas, Yifat Tomer-Yerushalmi, após o vazamento de um vídeo que mostra soldados abusando sexualmente de um detido palestino, mergulhou Israel em nova crise. O debate público, contudo, gira mais em torno do vazamento do que do crime em si, revelando a fragmentação política do país dois anos após o 7 de Outubro. Tarifas americanas e a ira da Itália O governo Trump ameaça impor tarifas de 91,7% sobre massas italianas, elevando o total para quase 107%. Mesmo aliados como Giorgia Meloni protestam contra a política "America First", que críticos rebatizam de "America Only". Na quarta-feira, a Suprema Corte analisará se o presidente pode agir como "rei das tarifas", definindo o alcance do poder executivo no comércio internacional. Leia reportagem do The Washington Post (texto em inglês). México: cartéis desafiam o Estado O assassinato do prefeito Carlos Manzo, de Uruapan, durante as celebrações do Dia dos Mortos, reacendeu o debate sobre segurança no México. A presidente Claudia Sheinbaum, que aposta numa política menos militarizada e baseada em inteligência policial, rejeitou pedidos de intervenção dos EUA, afirmando: "Intervenção não é justiça." Leia reportagem do El País (texto em espanhol). |
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