[ESTREIA] Quanto o Brasil deve ao clima (e não paga)?

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Quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Um Brasil soberano deve unir justiça tributária e ação climática


COP30 no Brasil exige mais ousadia: além de tributar ricos, temos que acabar com subsídios ao petróleo e financiar uma transição justa de verdade.

O Brasil está prestes a sediar a COP30, mas precisamos encarar uma verdade desconfortável: não somos apenas vítimas da crise climática. Estamos entre os dez países que mais contribuíram historicamente para o aquecimento global. Nossas emissões cumulativas, quando incluem desmatamento e mudança no uso da terra, indicam que ultrapassamos nossa "cota" há muito tempo.


A interdependência metabólica planetária é concreta: os fertilizantes do agronegócio brasileiro poluem o Caribe, assim como as ondas de calor na Europa também surgem por emissões do nosso desmatamento. Portanto, temos responsabilidade dupla — cobrar dos países ricos sua dívida climática histórica e pagar nossa própria conta, dentro e fora de casa.

Mas o governo brasileiro joga com os números através de uma perigosa contabilidade criativa. Enquanto nos apresentamos como líderes climáticos focando na redução do desmatamento na Amazônia, expandimos a exploração de petróleo no pré-sal e subsidiamos combustíveis fósseis.


As emissões dessa expansão simplesmente não aparecem nas nossas metas nacionais porque serão contabilizadas nos países compradores da commodity.


É uma forma de gattopardismo fóssil, como chamado por Breno Bringel, onde mudamos as coisas apenas na medida em que queremos que elas permaneçam como estão. Enquanto isso, nossas hidrelétricas — tão exaltadas por "descarbonizar" a matriz elétrica — já operam com 14-20% da capacidade durante secas extremas, expondo a fragilidade da nossa suposta segurança energética baseada em fósseis.

A solução existe e tem números concretos. Um relatório da Oil Change International mostra que é possível mobilizar US$ 6,6 trilhões anualmente através de medidas como a eliminação de subsídios a combustíveis fósseis, redução de gastos militares em 20% no Norte Global e tributação às empresas petrolíferas pelos danos climáticos.



A chave de ouro está no imposto sobre super-ricos: uma alíquota de 3,2% sobre fortunas acima de US$ 1 milhão, crescendo progressivamente, geraria US$ 5,97 trilhões globalmente.


No caso brasileiro, com combate à evasão fiscal e tributação progressiva, poderíamos arrecadar US$ 53 bilhões para nossa própria transição. E ainda contribuir com US$ 3 bilhões para o fundo climático global. Não falta dinheiro — falta vontade política para enfrentar bilionários e corporações.

A COP30 é importante, mas limitada. A disputa também passa por nossa política interna: acabar com os R$ 35 bilhões em renúncias fiscais que a Câmara entregou a investimentos, fintechs e bets; eliminar subsídios ao petróleo enquanto dizemos defender o clima; promover reforma agrária agroecológica em vez de mais incentivos bilionários para a elite do agronegócio.


Trata-se de coordenar nossas ações garantindo benefícios domésticos e solidariedade global, para que soluções parciais apresentadas pelo mercado não gerem mais dano ecológico e social. Um caminho verdadeiramente soberano precisa ser ecológico: em controle da nossa economia, com mais igualdade, transformação produtiva radical, e preparados para enfrentar as crises do nosso tempo.



[Leia o texto completo aqui] — análise detalhada sobre dívida climática, financeirização dos fundos globais e estratégias de cooperação tributária internacional.


O caminho a percorrer para superar a crise ecológica ainda é longo, mas conhecimento e estratégia nos ajudam a enxergar o horizonte. Preparei uma curadoria pra você se aprofundar no assunto.
Confira:


Curadoria

🏹 Os povos indígenas apontam o caminho


Que os povos indígenas e comunidades tradicionais são responsáveis pela preservação dos nossos biomas, nós já sabemos. Há dados concretos sobre isso e o reconhecimento é internacional.


Porém, a incorporação das propostas indígenas nas negociações sobre o clima segue aquém do necessário para impedir falsos esquemas de compensação de emissões apresentados pelo mercado de carbono e mais ainda para impedir que corporações se apropriem de territórios tradicionais em nome do clima.


Sabendo disso, a Associação dos Povos Indígenas do Brasil desenhou a NDC indígena. O documento comunica as propostas indígenas que precisam integrar as metas de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) do Brasil nos espaços da UNFCCC, como a COP30.


Lembrando que "cerca de 75% das fontes de emissão gases do efeito estufa brasileiras vêm da mudança de uso do solo e agropecuária", a transição justa passa por transformar a vida social e produtiva nos territórios, sendo chave o conhecimento indígena e a garantia de sua permanência em terras demarcadas e protegidas. 


Saiba mais aqui

👀Cuidado com o greenwashing na COP30


Acredite em quem estuda a influência corporativa nas COPs há 14 anos: o lobby fóssil, do agro e da indústria suja está cada vez mais pesado ali dentro.


Para piorar, agora lidamos também com a influência das big tech e sua sede por recursos, além de uma nova onda de negacionismo climático representado por países como os Estados Unidos e a Argentina.


Então, se você quer uma cobertura crítica da COP30, apontando seus limites, seus engodos, mas também caminhos de enfrentamento, o pessoal do Clima Ácido pode ajudar.


São vídeos curtos de um grupo de comunicadores da justiça climática, feitos de forma acessível, para denunciar o greenwashing e equipar mais pessoas para identificar o blá blá blá anti-climático que habita os espaços multilaterais.


Fique de olho aqui


Nos vemos no mês que vem!

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