O Brasil está prestes a sediar a COP30, mas precisamos encarar uma verdade desconfortável: não somos apenas vítimas da crise climática. Estamos entre os dez países que mais contribuíram historicamente para o aquecimento global. Nossas emissões cumulativas, quando incluem desmatamento e mudança no uso da terra, indicam que ultrapassamos nossa "cota" há muito tempo.
A interdependência metabólica planetária é concreta: os fertilizantes do agronegócio brasileiro poluem o Caribe, assim como as ondas de calor na Europa também surgem por emissões do nosso desmatamento. Portanto, temos responsabilidade dupla — cobrar dos países ricos sua dívida climática histórica e pagar nossa própria conta, dentro e fora de casa.
Mas o governo brasileiro joga com os números através de uma perigosa contabilidade criativa. Enquanto nos apresentamos como líderes climáticos focando na redução do desmatamento na Amazônia, expandimos a exploração de petróleo no pré-sal e subsidiamos combustíveis fósseis.
As emissões dessa expansão simplesmente não aparecem nas nossas metas nacionais porque serão contabilizadas nos países compradores da commodity.
É uma forma de gattopardismo fóssil, como chamado por Breno Bringel, onde mudamos as coisas apenas na medida em que queremos que elas permaneçam como estão. Enquanto isso, nossas hidrelétricas — tão exaltadas por "descarbonizar" a matriz elétrica — já operam com 14-20% da capacidade durante secas extremas, expondo a fragilidade da nossa suposta segurança energética baseada em fósseis.
A solução existe e tem números concretos. Um relatório da Oil Change International mostra que é possível mobilizar US$ 6,6 trilhões anualmente através de medidas como a eliminação de subsídios a combustíveis fósseis, redução de gastos militares em 20% no Norte Global e tributação às empresas petrolíferas pelos danos climáticos.
A chave de ouro está no imposto sobre super-ricos: uma alíquota de 3,2% sobre fortunas acima de US$ 1 milhão, crescendo progressivamente, geraria US$ 5,97 trilhões globalmente.
No caso brasileiro, com combate à evasão fiscal e tributação progressiva, poderíamos arrecadar US$ 53 bilhões para nossa própria transição. E ainda contribuir com US$ 3 bilhões para o fundo climático global. Não falta dinheiro — falta vontade política para enfrentar bilionários e corporações.
A COP30 é importante, mas limitada. A disputa também passa por nossa política interna: acabar com os R$ 35 bilhões em renúncias fiscais que a Câmara entregou a investimentos, fintechs e bets; eliminar subsídios ao petróleo enquanto dizemos defender o clima; promover reforma agrária agroecológica em vez de mais incentivos bilionários para a elite do agronegócio.
Trata-se de coordenar nossas ações garantindo benefícios domésticos e solidariedade global, para que soluções parciais apresentadas pelo mercado não gerem mais dano ecológico e social. Um caminho verdadeiramente soberano precisa ser ecológico: em controle da nossa economia, com mais igualdade, transformação produtiva radical, e preparados para enfrentar as crises do nosso tempo.
[Leia o texto completo aqui] — análise detalhada sobre dívida climática, financeirização dos fundos globais e estratégias de cooperação tributária internacional.
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