Restaurar florestas é vital para as crises climáticas e de biodiversidade, mas os custos elevados e o retorno financeiro lento são barreiras na implementação dessa agenda. Uma nova abordagem, porém, de união da restauração de ecossistemas à sociobioeconomia, transformando áreas em recuperação em fontes de renda, pode originar um novo modelo de uso do solo: a restauração sociobioeconômica, caracterizada pela multifuncionalidade que inclui o equacionamento de gargalos financeiros. Essa é uma solução baseada na Natureza que une, definitivamente, as desagregadas agendas de clima e biodiversidade. Um estudo recente conduzido na Mata Atlântica revelou que 59% das espécies nativas presentes em áreas restauradas têm algum potencial de uso econômico, principalmente para produção de fármacos, cosméticos e alimentos. Mas esse potencial não se resume a apenas relatos científicos, porque também leva em consideração a quantidade de árvores e palmeiras dessas espécies nessas florestas em restauração. Esse dado de campo se relaciona com logística, manejo e abastecimento da cadeia de suprimentos de madeira e produtos florestais não madeireiros, como frutos, sementes, resinas, raízes e folhas que servem para o consumo humano e animal e para a bioindustrialização. Não se trata apenas de plantar árvores ou de utilizar o modus operandi do extrativismo predatório clássico, onde nenhum critério de sustentabilidade é adotado e os bens do capital natural são explorados indiscriminadamente. Trata-se de criar "uma floresta natural" para o futuro sustentável. Ao selecionar espécies nativas dos biomas, não olharíamos isoladamente seu papel ecológico e funcional no estabelecimento de um ecossistema, mas também seu potencial econômico e sua resiliência às mudanças climáticas. Claro, esta não é a única forma de promover a restauração de ecossistemas, mas é mais uma maneira de, ao agregar valor econômico, tornar a restauração florestal atrativa para múltiplos atores, do investidor ao pequeno produtor rural, Povos Indígenas, Quilombolas e outras comunidades locais. É um caminho que pode aumentar a escala necessária para atingir as metas globais pró-clima e pró-biodiversidade estabelecidas, aumentando significativamente a absorção de carbono da atmosfera e proteção das espécies. Já temos ciência para isso, mas precisamos avançar com urgência e com escala! O paradoxo das patentes O desenvolvimento de patentes de produtos da biodiversidade brasileira é um termômetro mercadológico real. O registro de patentes, em grande parte feito por empresas e universidades, tem o objetivo de proteger e rentabilizar inovações. O potencial é claro, mas quem está lucrando com ele? O estudo recente conduzido na Mata Atlântica revelou um paradoxo. A maior parte das patentes de biodiversidade, registradas pelas 30 empresas com maior número de patentes relacionadas à biodiversidade na plataforma do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), foca em espécies de plantas que não fazem parte da biodiversidade nacional, ou seja, espécies exóticas à flora brasileira. Isso significa que as empresas líderes no desenvolvimento de patentes no Brasil estão ignorando o vasto potencial das espécies nativas. De fato, isso representa uma restrição para conciliar restauração florestal com sociobioeconomia, visto que 89% das patentes dessas empresas foram relacionadas ao uso de espécies exóticas. Além disso, quando a origem das patentes das espécies nativas encontradas nas florestas regenerantes de São Paulo foi analisada, os resultados mostraram que 92% delas foram registradas fora do Brasil. Isso significa que o Brasil tem perdido a oportunidade de desenvolver uma indústria sustentável, inovadora, social e climaticamente justa, de ponta aqui no território nacional, baseada em nossa riquíssima biodiversidade. Pessoas, tecnologia e futuro no campoEssa sociobioeconomia não é só sobre moléculas; é sobre pessoas. Ao valorizar produtos não madeireiros—como folhas, sementes e óleos, que podem ser colhidos sem derrubar a árvore—criamos uma economia que respeita o modo de vida rural. Ela agrega tecnologia ao conhecimento ancestral, podendo atrair e manter jovens no campo com uma visão de futuro que une sustentabilidade e lucratividade, ao mesmo tempo que provê serviços ecossistêmicos para todas e todos e perpetua a cultura do cuidado com a terra. E a agregação de valor aos produtos da sociobiodiversidade via bioindustrialização permite o crescimento da classe média, em todo o Brasil, ao darmos escala à sociobioeconomia com base em milhares de produtos da mais rica biodiversidade do planeta, mas que hoje representam um valor desprezível na economia nacional. Onde está o dinheiro?Para destravar o potencial econômico da restauração florestal com espécies nativas, precisamos falar sobre financiamento. O financiamento climático internacional para o Brasil cresceu 84% recentemente, mas a maior parte foi para o setor de energia (solar e eólica), que responde por apenas 23% das emissões nacionais. O setor de Agricultura, Silvicultura e outros Usos da Terra (conhecido pela sigla AFOLU), responde por aproximadamente 70% das nossas emissões de gases de efeito estufa e recebe apenas 11% do financiamento internacional global. A silvicultura, que precisa avançar no conhecimento sobre as espécies nativas, ficou com míseros 2% do financiamento internacional total, conforme dados do Mapeamento de Financiamento Climático Internacional para o Brasil. É uma distorção que precisa ser corrigida. Adicionalmente, políticas públicas, como certificações para produtos da restauração com base na riquíssima biodiversidade, incentivos fiscais e compras públicas, são cruciais para garantir mercado e competitividade à restauração florestal. COP30: A hora de agir O Brasil é uma potência agrícola que se expandiu sobre a vegetação nativa e, ao mesmo tempo, é o país com a maior área tropical restaurável do planeta. Temos a ciência e os cientistas. Na COP30, em Belém, temos uma oportunidade única de sair da narrativa e implementar soluções, fazendo coro ao apelido dessa COP - A COP da implementação. É nesse momento único que precisamos buscar o ponto de virada para o Brasil se tornar um centro de soluções baseadas na natureza, provando que uma sociobioeconomia regenerativa que valoriza os serviços de todos os nossos biomas é mais inteligente e lucrativa do que o atual modelo econômico degradador de ecossistemas. *Pedro Medrado Krainovic é pesquisador de pós-doutorado no IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP (Universidade de São Paulo). Suas principais áreas de pesquisa incluem restauração florestal, adaptação às mudanças climáticas, multifuncionalidade de ecossistemas florestais, bioeconomia, manejo de produtos florestais madeireiros e não madeireiros, manejo florestal, silvicultura de espécies nativas e resiliência socioecológica. |
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